Até que ponto cabe à justiça deliberar sobre as práticas de saúde?
*Por Dr. Daniel Martins de Barros
Talvez você já tenha lido as manchetes dizendo que a justiça
autorizou os psicólogos a tratarem a homossexualidade como doença. Não a
colocaria na categoria de fake news (notícia falsa), mas é claramente junk news
– a manchete simplifica muito a notícia,
passando uma ideia superficial –
e enviesada. Como ela tem aquele jeitão que rende muitos likes e
compartilhamentos, não descarto que seja propositalmente assim. Mas como também
o assunto é complexo, requerendo um aprofundamento que tomaria um tempo que nem
todo site de notícia tem, podemos dar o benefício da dúvida – talvez ela só tenha sido escrita às
pressas. Ou vai ver que ninguém entende nada do que está falando, o que é
sempre uma possibilidade.
Para compreender o caso: em 1999 o Conselho Federal de
Psicologia (CFP) publicou uma resolução dizendo, essencialmente, que “os psicólogos não exercerão qualquer ação
que favoreça a patologização de comportamentos ou práticas homoeróticas, nem
adotarão ação coercitiva tendente a orientar homossexuais para tratamentos não
solicitados. Parágrafo único –
Os psicólogos não colaborarão com eventos e serviços que proponham tratamento e
cura das homossexualidades”.
O objetivo era basicamente proibir psicólogos de oferecerem cura para a
homossexualidade, que de resto nem é doença.
Agora um juiz do Distrito Federal julgou uma ação popular
que pretendia derrubar essa resolução. Em sua sentença, contudo, ele manteve a
resolução. Quem lê-la verá que o juiz afirma com todas as letras que “a homossexualidade constitui variação
natural da sexualidade humana, não podendo ser, portanto, considerada como
condição patológica”. (leia) Apesar disso diz não se pode “privar o psicólogo de estudar ou
atender àqueles que, voluntariamente, venham em busca de orientação acerca de
sua sexualidade, sem qualquer forma de censura, preconceito ou discriminação”.
Mantém, portanto, a resolução, mas determina que o CFP “não a interprete de modo a impedir os
psicólogos de promoverem estudos ou atendimento profissional, de forma
reservada, pertinente à (re)orientação sexual(…)”.
Resumindo: homossexualidade não é doença, os psicólogos eram
proibidos de afirmar o contrário e continuam sendo proibidos. Também continuam
sem permissão de divulgar tratamentos para curar gays. Só não estão mais
proibidos de ajudar, forma privada, homossexuais que os procuram livremente
querendo deixar de ser homossexuais.
O pomo da discórdia é: o psicólogo poderia ou não tratar
alguém que o busca para deixar de ser
gay? O Conselho Federal de Psicologia (CFP) entende que não, porque isso estigmatiza a homossexualidade como
doença. O juiz entende que sim, porque cada um é livre para fazer o que bem
entender, e se a pessoa quer mudar sua orientação sexual, deixemos seu psicólogo
tentar. Eu mesmo fico dividido, mas por motivos bem diferentes. Por
um lado acho que nenhum psicólogo deveria acolher essa demanda de seus
pacientes, porque simplesmente não há evidências científicas que sustentem sua
eficácia. Mas por outro, se a gente fosse proibir os profissionais de saúde de
oferecer tratamentos não baseados nas mais sólidas evidências científicas,
homeopatia, acupuntura, florais de Bach, quiropraxia, e a própria psicanálise
deveriam ser banidas.
Então deixo nas mãos do leitor. Quem chegou até aqui deve ter percebido que, muitas vezes, ao nos aprofundarmos numa questão complexa e com tantas nuances torna-se mais difícil – e não mais fácil – firmar uma posição. É muito mais simples compartilhar uma manchete nas redes sociais xingando-a ou a aplaudindo quando não sabemos bem do que se trata.
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*Psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq-HC), onde atua como coordenador médico do Núcleo de Psiquiatria Forense e Psicologia Jurídica (Nufor). Doutor em Ciências e bacharel em Filosofia, ambos pela Universidade de São Paulo (USP).
Fonte: E+ | Revista do jornal O Estado de S. Paulo. Visualizado em 20.SET.2017.
Acessado em: http://emais.estadao.com.br/blogs/daniel-martins-de-barros/sensacionalismo-pressa-ou-ignorancia-a-volta-da-cura-gay/
Acessado em: http://emais.estadao.com.br/blogs/daniel-martins-de-barros/sensacionalismo-pressa-ou-ignorancia-a-volta-da-cura-gay/

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